Pedindo licença a Nicolau Santos, Director - adjunto do Semanário Expresso, que publicou o texto abaixo na Revista "Exportar", transcrevo esse texto, pois sabe bem que Portugal possa exibir também estes excelentes exemplos positivos. Nos últimos anos, depois da nossa adesão à UE (União Europeia), é verdade que a nossa mentalidade se tem aberto a vários níveis, e que nos revelamos menos periféricos. Permanece porém o leitmotiv deste blog: infelizmente, do ponto de vista cultural, os nossos outros "conterrâneos" europeus raramente se referem a nós, ao contrário do que acontece relativamente a Espanha. Citarei mais tarde algumas excepções de que nos podemos orgulhar.Eis o artigo:
Eu conheço um país que tem uma das mais baixas taxas de mortalidade mundial de recém-nascidos, melhor do que a média da UE
Eu conheço um país onde tem sede uma empresa que é líder mundial de tecnologia de transformadores
Eu conheço um país que é líder mundial na produção de feltros para chapéus
Eu conheço um país que está muito avançado na investigação e produção de energia através das ondas do mar e do vento
Eu conheço um país que tem uma empresa que analisa o ADN de plantas e animais e envia os resultados para toda a UE
Eu conheço um país que desenvolveu sistemas inovadores de gestão de clientes e de stocks, dirigidos às PME's
Eu conheço um país que tem diversas empresas a trabalhar para a NASA e para a Agência Espacial Europeia
Eu conheço um país que desenvolveu um sistema muito cómodo de passar nas portagens das auto-estradas
Eu conheço um país que inventou e produz um medicamento anti-epiléptico para o mercado mundial
Eu conheço um país que é líder mundial na produção de rolhas de cortiça
Eu conheço um país que produz um vinho que em duas provas ibéricas superou vários dos melhores vinhos espanhóis
Eu conheço um país que inventou e desenvolveu o melhor sistema mundial de pagamento de pré-pagos para telemóveis
Eu conheço um país que construiu um conjunto de projectos hoteleiros de excelente qualidade, que se encontram implantados em diversas partes do Mundo
O leitor,possivelmente, não reconheceu neste país aquele em que vive:PORTUGAL
Mas é verdade.Tudo o que leu acima foi feito por empresas fundadas por portugueses, desenvolvidas por portugueses, dirigidas por portugueses, com sede em Portugal, que funcionam com técnicos e trabalhadores portugueses
Chamam-se, por ordem, Efacec, Fepsa, Ydreams, Mobycomp, GALP, SIBS, BPI, BCP, Totta, BES, CGD, Stab Vida, Altitude Software, OutSystems, WeDo, Quinta do Monte d'Oiro, Brisa Space Services, Bial,Activespace Technologies, Deimos Engenharia, Lusospace, Skysoft, PortugalTelecom Inovação, Grupos Vila Galé, Amorim, Pestana, Porto Bay e BES Turismo
Há ainda grandes empresas multinacionais instaladas no País, mas dirigidas por portugueses, com técnicos portugueses, de reconhecido sucesso junto das casas mãe, como a Siemens Portugal, a Bosch, a Vulcano, a Alcatel, a BP Portugal e a Mc Donalds (que desenvolveu e aperfeiçoou em Portugal um sistema que permite quantificar as refeições e o tipo das que são vendidas em cada um dos estabelecimentos da cadeia em todo o mundo)
É este o País de sucesso em que também vivemos, estatisticamente sempre na cauda da Europa, com péssimos índices na educação e gravíssimos problemas no ambiente e na saúde...e que se atrasou em relação à média da UE,etc.
Mas só falamos do País que está mal, daquele que não acompanhou o progresso
É tempo de mostrarmos ao mundo os nossos sucessos e de nos orgulharmos disso
(Acabou o artigo).
Porque é que esses técnicos e gestores tão bons não estão todos no governo, pergunto eu. Porque ganhariam menos e porque, saindo das empresas onde trabalham, estas passariam a destacar-se menos e a funcionar pior...
Consequências culturais, sociais, temperamentais. históricas, sociológicas, económicas, etc. da periferia de Portugal na Europa. Outros diversos temas serão também tratados, que não cabem no título deste blogue. Citação: A inspiração chega de formas imprevisíveis, Richard Zenith, no Prefácio ao Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, Editora Assírio & Alvim.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Portugal actual - Algum esforço se vai fazendo !
Portugal Actual
Parece que há quem visite este blog e pense que, pelo que aqui escrevo, não sei que Portugal vale mais do que aqui digo... Quem assim pensa ainda não reparou que tudo o que aqui tenho escrito até agora é irrefutável. Seríamos melhores, muito melhores, se não suportássemos sobre os ombros as carências que suportamos. As minhas opiniões estão documentadas: é o PIB per capita que é baixíssimo; é a taxa de analfabetismo que é a maior da Europa; são os filhos dos imigrantes portugueses no Canadá que apresentam a maior taxa de abandono escolar se comparados com os filhos dos restantes imigrantes de outros países, é a música erudita portuguesa (ou não erudita...) que, praticamente, não é transmitida nas centenas de estações de rádio internacionais que aqui oiço via internet ou via parabólica, (a única excepção é, de quando em vez, a pianista Maria João Pires, especialmente numa rádio neerlandesa), ao contrário da música espanhola ou da inspirada em Espanha, etc. Tomara eu que isto não fosse verdadeiro, porque me sentiria mais orgulhoso do meu país ! E, o que é também motivo de reflexão, é que uma expressiva maioria dos meus compatriotas parece não ter consciência destas realidades (ou faz por as esquecer, como se esquecê-las resolvesse o problema...). É por essa razão que - quando tomo conhecimento de realidades positivas - se me alegra a alma e não me coíbo de as destacar conforme é o caso do trabalho que vem desenvolvendo a AICEP
Parece que há quem visite este blog e pense que, pelo que aqui escrevo, não sei que Portugal vale mais do que aqui digo... Quem assim pensa ainda não reparou que tudo o que aqui tenho escrito até agora é irrefutável. Seríamos melhores, muito melhores, se não suportássemos sobre os ombros as carências que suportamos. As minhas opiniões estão documentadas: é o PIB per capita que é baixíssimo; é a taxa de analfabetismo que é a maior da Europa; são os filhos dos imigrantes portugueses no Canadá que apresentam a maior taxa de abandono escolar se comparados com os filhos dos restantes imigrantes de outros países, é a música erudita portuguesa (ou não erudita...) que, praticamente, não é transmitida nas centenas de estações de rádio internacionais que aqui oiço via internet ou via parabólica, (a única excepção é, de quando em vez, a pianista Maria João Pires, especialmente numa rádio neerlandesa), ao contrário da música espanhola ou da inspirada em Espanha, etc. Tomara eu que isto não fosse verdadeiro, porque me sentiria mais orgulhoso do meu país ! E, o que é também motivo de reflexão, é que uma expressiva maioria dos meus compatriotas parece não ter consciência destas realidades (ou faz por as esquecer, como se esquecê-las resolvesse o problema...). É por essa razão que - quando tomo conhecimento de realidades positivas - se me alegra a alma e não me coíbo de as destacar conforme é o caso do trabalho que vem desenvolvendo a AICEP
terça-feira, 20 de outubro de 2009
sábado, 17 de outubro de 2009
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
AS CONSEQUÊNCIAS DA NOSSA PERIFERIA: EUROSTAT - PRODUÇÃO INDUSTRIAL NA UNIÃO EUROPEIA
AS CONSEQUÊNCIAS DA NOSSA PERIFERIA: EUROSTAT - PRODUÇÃO INDUSTRIAL NA UNIÃO EUROPEIA: "http://epp.eurostat.ec.europa.eu/tgm/table.do?tab=table&init=1&language=en&pcode=te"
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
A periferia da Islândia...
Há quem me fale da periferia da Islândia, apontando-a como exemplo de país periférico com índices económicos e culturais notáveis. Islândia que tem uma taxa de analfabetismo de 0%. Pois essa Islândia está hoje falida, insolvente, tal como a Estónia. Antes da crise financeira internacional possuía um nível de vida inultrapassável, apesar da sua situação extremamente periférica. Eis o que tenho a dizer sobre o assunto:
1) A Islândia foi uma província da Dinamarca (e, antes,da Noruega) até adquirir a independência creio que por volta de 1926. Até então houve uma espécie de osmose entre as duas culturas.
2) A economia islandesa - uma economia social de mercado que beneficia os seus cidadãos com generosos subsídios para habitação, por exemplo - sempre se baseou essencial e quase exclusivamente - até hoje - na actividade das pescas (98% do PIB), nos produtos derivados da pesca e na exportação destes produtos, muito especialmente para os Estados Unidos. Apenas desde há poucos anos começou a diversificar a sua economia para áreas industriais específicas de pequena dimensão. Porquê? Dever-se-á isso exactamente à sua situação periférica? As pescas são uma actividade humana ancestral, tradicional. Aquele povo nórdico, isolado do resto da Europa, entregou-se desde cedo a esta actividade económica tradicional e permaneceu apegado a ela durante séculos. O seu isolamento em relação ao resto da Europa também não contrbuiu para a atracção/captação de investimentos estrangeiros que promovessem a diversificação das actividades económicas.
Actualmente - devido à crise internacional vigente - a Islândia não possui recursos financeiros para pagar a sua dívida externa (principalmente ao Reino Unido e à França), e já teve de recorrer a empréstimos do FMI, com elevadas taxas de juro). Os seus três maiores Bancos abriram falência no final de 2008. Foram criados pelo Estado novos Bancos, geridos por este, para estabilizar o valor da moeda (Krona) e para garantir depósitos externos existentes nos Bancos islandeses.
Espera-se que a taxa de desemprego ultrapasse os 10% em 2010. Existe agora uma forte corrente de opinião a favor da adesão à União Europeia e da adopção do Euro.
Entre outras consequências, a periferia tem destas coisas...
1) A Islândia foi uma província da Dinamarca (e, antes,da Noruega) até adquirir a independência creio que por volta de 1926. Até então houve uma espécie de osmose entre as duas culturas.
2) A economia islandesa - uma economia social de mercado que beneficia os seus cidadãos com generosos subsídios para habitação, por exemplo - sempre se baseou essencial e quase exclusivamente - até hoje - na actividade das pescas (98% do PIB), nos produtos derivados da pesca e na exportação destes produtos, muito especialmente para os Estados Unidos. Apenas desde há poucos anos começou a diversificar a sua economia para áreas industriais específicas de pequena dimensão. Porquê? Dever-se-á isso exactamente à sua situação periférica? As pescas são uma actividade humana ancestral, tradicional. Aquele povo nórdico, isolado do resto da Europa, entregou-se desde cedo a esta actividade económica tradicional e permaneceu apegado a ela durante séculos. O seu isolamento em relação ao resto da Europa também não contrbuiu para a atracção/captação de investimentos estrangeiros que promovessem a diversificação das actividades económicas.
Actualmente - devido à crise internacional vigente - a Islândia não possui recursos financeiros para pagar a sua dívida externa (principalmente ao Reino Unido e à França), e já teve de recorrer a empréstimos do FMI, com elevadas taxas de juro). Os seus três maiores Bancos abriram falência no final de 2008. Foram criados pelo Estado novos Bancos, geridos por este, para estabilizar o valor da moeda (Krona) e para garantir depósitos externos existentes nos Bancos islandeses.
Espera-se que a taxa de desemprego ultrapasse os 10% em 2010. Existe agora uma forte corrente de opinião a favor da adesão à União Europeia e da adopção do Euro.
Entre outras consequências, a periferia tem destas coisas...
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
E subitamente há factos que nos surpreendem...
É verdade! Subitamente tomamos conhecimento de factos que nos surpreendem pela positiva : escute-se esta óptima interpretação do conhecido Concerto de Varsóvia, de Richard Addinsell, pelo pianista português André Vaz Pereira, no Teatro Aveirense, acompanhado pela orquestra da Sociedade Musical Gouveense. Repare-se também que esta orquestra é constituída por elementos muito jovens ! É de muitas "excepções" destas que o nosso país necessita. É claro que possuímos excelentes outros intérpretes e compositores de música erudita (nem é necessário citá-los pois são muitos e variados), mas estes distinguem-se pela sua juventude e por ainda não possuírem a fama dos outros. Hão-de lá chegar.
Nota: para poder visionar o vídeo anexo no YouTube, é necessário ter instalado no computador os programas/softwares, JAVA e Adobe Flash Player (deste, a Versão 9 ou 10)
http://www.youtube.com/watch?v=_bOD0Qt1FXM
Nota: para poder visionar o vídeo anexo no YouTube, é necessário ter instalado no computador os programas/softwares, JAVA e Adobe Flash Player (deste, a Versão 9 ou 10)
http://www.youtube.com/watch?v=_bOD0Qt1FXM
quarta-feira, 15 de julho de 2009
EUROSTAT - PRODUÇÃO INDUSTRIAL NA UNIÃO EUROPEIA
Nesta tabela do Eurostat (Produção Industrial de 2008 e 2009) não ficamos mal colocados em comparação com outros países europeus. Que haja algo de que possamos finalmente regozijar-nos.
http://epp.eurostat.ec.europa.eu/tgm/table.do?tab=table&init=1&language=en&pcode=teiis080&tableSelection=2&plugin=0
http://epp.eurostat.ec.europa.eu/tgm/table.do?tab=table&init=1&language=en&pcode=teiis080&tableSelection=2&plugin=0
quinta-feira, 18 de junho de 2009
DESNECESSÁRIO CITAR MAIS EXEMPLOS
É desnecessário citar mais exemplos de como a nossa postura tradicional, geralmente antitética, de oposição, em comparação com a ânsia de progresso que se tem verificado entre os outros povos ocidentais - pelo menos após a época dos Descobrimentos - e a sua constante abertura a novas ideias, tem contribuído para o nosso generalizado atraso cultural e material (é evidente que há muitas excepções que não invalidam a regra geral e possuímos actualmente diversas Universidades onde se pratica investigação avançada em diversas áreas que resultam em aplicações concretas que até exportamos). No entanto, essa não é a regra. Já nas "Cartas de Inglaterra", Eça de Queiroz aludia à intensa vida cultural da Londres do Século XIX, o que nos faz pensar nas diferenças que certamente a contrapunham à portuguesa da Lisboa de então. Não resisto a transcrever este um tanto longo, mas delicioso capítulo:
"ACERCA DE LIVROS
Outubro chegou, e com este mês, em que as folhas caem, começam aqui a aparecer os livros, folhas às vezes tão efémeras como as das árvores, e não tendo como elas o encanto do verde, do murmúrio e da sombra.
Estamos, com efeito, em plena Book-Season, a estação dos livros.
Estes dois meses, Setembro e Outubro (e eles merecem-no, porque, como cor, luz, repouso, são os mais simpáticos do ano) têm acumulado em si as mais interessantes seasons, as estações mais fecundas da vida inglesa.
A London-Season, a célebre estação de Londres, quando a Aristocracia, maior e menor, os dez mil de cima, como se dizia antigamente, o folhado, como se diz agora, recolhe dos parques e palácios do campo aos seus palacetes e jardinetes de Londres — passa-se em Abril, Junho e Julho, verdade seja. Mas essa é uma vã e oca estação de trapos, de luvas de vinte botões, de lacaios, de champagne, de batota e de cotillon. Enquanto que as outras!...
Olhem-me para estas sábias, úteis, viris, solenes seasons, que abundam nestes dourados meses de Setembro e Outubro. Isto sim! Aqui temos, por exemplo, a Congress-Season, a estação dos Congressos.
Que espectáculo! Toda a verde superfície da Inglaterra está então, de norte a sul, salpicada de manchas negras. São congressos em deliberação. Há-os metafísicos e há-os de cozinheiros.
Aqui duzentos indivíduos carrancudos e descontentes, elaboram uma nova ordem social; além, uma multidão de sábios, acocorados,semanas inteiras, em torno de um objecto escuro, não podem chegar à conclusão se é um tijolo vilmente recente ou uma laje da câmara nupcial da rainha Guinevra; e adiante, cavalheiros anafados e luzidios assentam a doutrina definitiva da engorda do leitão — esse amor!
Os congressos mais notáveis este ano foram — o de medicina em Londres, a que assistiram mil e trezentos congressistas, médicos cirurgiões dos dois mundos e dos dois sexos, e onde se prometeu à humanidade, para daqui a anos, a supressão das epidemias pelas vacinas; o da British Association, a grande Sociedade das Ciências, o congresso anual celebrado este ano em Iorque) em que o presidente, Sir John Lubbock, esse amável sábio que tem passado a existência a estudar as civilizações inferiores dos insectos, laboriosas democracias de formigas, deploráveis oligarquias de abelhas — ocupou-se desta vez, dando um balanço da ciência durante os últimos cinquenta anos, a mostrar algumas das estupendas habilidades desse outro efémero insecto, o Homem; e enfim um congresso anual da Igreja, celebrado em Newcastle, composto de bispos, dignitários eclesiás_cos. teólogos, doutores em divindade, este largo clero anglicano, mais douto e literário da Europa. Neste, entre outros assuntos, scutiu-se a Influência da Arte na vida e no pensar religioso: mas, santo a mim, o resultado mais nítido foi o revelar incidentalmente que a frequentação dos templos, em Inglaterra, diminui de um terço todos os dez anos, ao passo que o espírito de religiosidade cresce nas casas, tornando-se assim o sentimento religioso cada dia mais desprendido das formas caducas e perecíveis das religiões.
Neste momento há outros congressos — o dos Metalurgistas, o das Ciências Sociais, o dos Telegrafistas, o Arqueológico, o dos Lavradores, o dos... Enfim, centenares. Até o dos Browninguistas. Não sabem o que são os Browninguistas? Uma vasta associação, tendo por fim estudar, comentar, interpretar, venerar, propagar, ilustrar. divinizar as obras do poeta Browning. Isto, mesmo neste país de arrebatados entusiasmos intelectuais, me parece um pouco forte. Browning é sem dúvida, com Shelley, Shakespeare e Milton, um dos quatro príncipes da poesia inglesa: mas tem o inconveniente de estar vivo. Ele próprio assiste, materialmente, com o seu paletó e o seu guarda-chuva, ao congresso de que é objecto espiritual e assunto: e fatalmente, pelo efeito, mesmo da sua presença, a admiração literária tende a tornar-se idolatria pessoal, e os shake-hands, que distribui, começam naturalmente a ser mais apreciados no congresso que os poemas que ele escreveu. Por isso mesmo que o divinizem, o amesquinham: não é então o grande poeta de Inglaterra, é o particular dos Browninguistas; deixa assim de ser um espírito falando a espíritos — para ser apenas um manipanso, aterrorizando supersticiosos.
Mas, continuando com as estações, temos ainda a Yachting-Season a estação náutica, das regatas, das viagens em yacht. Hoje, em Inglaterra, ter um yacht é, como entre nós montar carruagem, o primeiro dever social do rico ou do enriquecido, uma das formas mais triviais do conforto luxuoso. Um yacht não é só um frágil e airoso barco de cinquenta toneladas e vela branca; pode ser também um negro e poderoso vapor de duas mil toneladas e sessenta homens de tripulação. Neste último caso, em lugar de bordejar gentilmente em redor das flores e das relvas da ilha de Wight, ou de ir mergulhar nessas prodigiosas paisagens marinhas do alto norte da Escócia, vai dar a volta ao mundo, carregado de Bíblias para os pequenos patagónios, de champagne e de amor para as lindas missionárias vestidas de marinheiras. A vida de yacht tem os seus costumes especiais, a sua etiqueta, a sua fraseologia, a sua moral própria, e sobretudo a sua literatura. A literatura de yacht é vasta — William Black, o autor das Asas Brancas, do Nascer do Sol, da Princesa de Thude, o seu romancista oficial; um paisagista maravilhoso, de resto, tendo na sua pena todo o vigor do pincel dum Jules Breton.
Temos igualmente neste mês a Shooting-Season, a estação da caça ao tiro, que abre no 1º de Setembro com uma solenidade e no meio de um interesse público tão intenso, tão fremente - que me dá sempre ideia do que devia ter sido, nas vésperas da Grande Revolução, a abertura dos Estados Gerais. Peço perdão desta abominável comparação — mas a carne é fraca, e eu considero esta estação sublime. É nela que se caça o grouse, e é durante ela que se come o grouse. Não sabem o que é o grouse? É um pássaro do tamanho da perdiz, que vive (Deus o abençoe!) nos moors, ou descampados da Escócia... Agora deixem-me repousar um momento, e ficar aqui, num êxtase manso, pensando no grouse, com as mãos crispadas sobre o estômago, o olho enternecido, lambendo o lábio...
NOTA - Os que porventura me lêem, já há muito leram as "Cartas de Inglaterra" do Eça. O que aqui ficou é apenas um extracto do Capítulo II do seu livro. A quem não as tenha lido, recomendo vivamente a sua leitura.
"ACERCA DE LIVROS
Outubro chegou, e com este mês, em que as folhas caem, começam aqui a aparecer os livros, folhas às vezes tão efémeras como as das árvores, e não tendo como elas o encanto do verde, do murmúrio e da sombra.
Estamos, com efeito, em plena Book-Season, a estação dos livros.
Estes dois meses, Setembro e Outubro (e eles merecem-no, porque, como cor, luz, repouso, são os mais simpáticos do ano) têm acumulado em si as mais interessantes seasons, as estações mais fecundas da vida inglesa.
A London-Season, a célebre estação de Londres, quando a Aristocracia, maior e menor, os dez mil de cima, como se dizia antigamente, o folhado, como se diz agora, recolhe dos parques e palácios do campo aos seus palacetes e jardinetes de Londres — passa-se em Abril, Junho e Julho, verdade seja. Mas essa é uma vã e oca estação de trapos, de luvas de vinte botões, de lacaios, de champagne, de batota e de cotillon. Enquanto que as outras!...
Olhem-me para estas sábias, úteis, viris, solenes seasons, que abundam nestes dourados meses de Setembro e Outubro. Isto sim! Aqui temos, por exemplo, a Congress-Season, a estação dos Congressos.
Que espectáculo! Toda a verde superfície da Inglaterra está então, de norte a sul, salpicada de manchas negras. São congressos em deliberação. Há-os metafísicos e há-os de cozinheiros.
Aqui duzentos indivíduos carrancudos e descontentes, elaboram uma nova ordem social; além, uma multidão de sábios, acocorados,semanas inteiras, em torno de um objecto escuro, não podem chegar à conclusão se é um tijolo vilmente recente ou uma laje da câmara nupcial da rainha Guinevra; e adiante, cavalheiros anafados e luzidios assentam a doutrina definitiva da engorda do leitão — esse amor!
Os congressos mais notáveis este ano foram — o de medicina em Londres, a que assistiram mil e trezentos congressistas, médicos cirurgiões dos dois mundos e dos dois sexos, e onde se prometeu à humanidade, para daqui a anos, a supressão das epidemias pelas vacinas; o da British Association, a grande Sociedade das Ciências, o congresso anual celebrado este ano em Iorque) em que o presidente, Sir John Lubbock, esse amável sábio que tem passado a existência a estudar as civilizações inferiores dos insectos, laboriosas democracias de formigas, deploráveis oligarquias de abelhas — ocupou-se desta vez, dando um balanço da ciência durante os últimos cinquenta anos, a mostrar algumas das estupendas habilidades desse outro efémero insecto, o Homem; e enfim um congresso anual da Igreja, celebrado em Newcastle, composto de bispos, dignitários eclesiás_cos. teólogos, doutores em divindade, este largo clero anglicano, mais douto e literário da Europa. Neste, entre outros assuntos, scutiu-se a Influência da Arte na vida e no pensar religioso: mas, santo a mim, o resultado mais nítido foi o revelar incidentalmente que a frequentação dos templos, em Inglaterra, diminui de um terço todos os dez anos, ao passo que o espírito de religiosidade cresce nas casas, tornando-se assim o sentimento religioso cada dia mais desprendido das formas caducas e perecíveis das religiões.
Neste momento há outros congressos — o dos Metalurgistas, o das Ciências Sociais, o dos Telegrafistas, o Arqueológico, o dos Lavradores, o dos... Enfim, centenares. Até o dos Browninguistas. Não sabem o que são os Browninguistas? Uma vasta associação, tendo por fim estudar, comentar, interpretar, venerar, propagar, ilustrar. divinizar as obras do poeta Browning. Isto, mesmo neste país de arrebatados entusiasmos intelectuais, me parece um pouco forte. Browning é sem dúvida, com Shelley, Shakespeare e Milton, um dos quatro príncipes da poesia inglesa: mas tem o inconveniente de estar vivo. Ele próprio assiste, materialmente, com o seu paletó e o seu guarda-chuva, ao congresso de que é objecto espiritual e assunto: e fatalmente, pelo efeito, mesmo da sua presença, a admiração literária tende a tornar-se idolatria pessoal, e os shake-hands, que distribui, começam naturalmente a ser mais apreciados no congresso que os poemas que ele escreveu. Por isso mesmo que o divinizem, o amesquinham: não é então o grande poeta de Inglaterra, é o particular dos Browninguistas; deixa assim de ser um espírito falando a espíritos — para ser apenas um manipanso, aterrorizando supersticiosos.
Mas, continuando com as estações, temos ainda a Yachting-Season a estação náutica, das regatas, das viagens em yacht. Hoje, em Inglaterra, ter um yacht é, como entre nós montar carruagem, o primeiro dever social do rico ou do enriquecido, uma das formas mais triviais do conforto luxuoso. Um yacht não é só um frágil e airoso barco de cinquenta toneladas e vela branca; pode ser também um negro e poderoso vapor de duas mil toneladas e sessenta homens de tripulação. Neste último caso, em lugar de bordejar gentilmente em redor das flores e das relvas da ilha de Wight, ou de ir mergulhar nessas prodigiosas paisagens marinhas do alto norte da Escócia, vai dar a volta ao mundo, carregado de Bíblias para os pequenos patagónios, de champagne e de amor para as lindas missionárias vestidas de marinheiras. A vida de yacht tem os seus costumes especiais, a sua etiqueta, a sua fraseologia, a sua moral própria, e sobretudo a sua literatura. A literatura de yacht é vasta — William Black, o autor das Asas Brancas, do Nascer do Sol, da Princesa de Thude, o seu romancista oficial; um paisagista maravilhoso, de resto, tendo na sua pena todo o vigor do pincel dum Jules Breton.
Temos igualmente neste mês a Shooting-Season, a estação da caça ao tiro, que abre no 1º de Setembro com uma solenidade e no meio de um interesse público tão intenso, tão fremente - que me dá sempre ideia do que devia ter sido, nas vésperas da Grande Revolução, a abertura dos Estados Gerais. Peço perdão desta abominável comparação — mas a carne é fraca, e eu considero esta estação sublime. É nela que se caça o grouse, e é durante ela que se come o grouse. Não sabem o que é o grouse? É um pássaro do tamanho da perdiz, que vive (Deus o abençoe!) nos moors, ou descampados da Escócia... Agora deixem-me repousar um momento, e ficar aqui, num êxtase manso, pensando no grouse, com as mãos crispadas sobre o estômago, o olho enternecido, lambendo o lábio...
NOTA - Os que porventura me lêem, já há muito leram as "Cartas de Inglaterra" do Eça. O que aqui ficou é apenas um extracto do Capítulo II do seu livro. A quem não as tenha lido, recomendo vivamente a sua leitura.
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